segunda-feira, 15 de setembro de 2008

o que é, afinal, contra-indústria?

Sinto que a discussão neste blog aqui anda meio parada.

Sntão vou propor aqui o debate sobre dois termos que foram criados em contraposição a outros, usados anteriormente, e que careciam de demarcações teóricas claras.

O termo "indústria cultural" foi criado por Theodor Adorno, um dos principais filósofos ligados à Escola de Frankfurt (também conhecida como Escola Crítica), e diz respeito ao conjunto de produtos e manifestações geradas através dos mass media e das estruturas técnicas, burocráticas e comerciais capitalistas, no início do desenvolvimento da época da reprodutibilidade técnica da arte (idéia desenvolvida por Walter Benjamim, também da mesma escola), como alternativa ao termo "Cultura de Massas", desenvolvido pelos americanos.

Indústria Cultural surgiu como um termo que aponta para a percepção de que a cultura "midiática" não pode ser propriamente considerada uma cultura DE massas, já que é, desde seu início, marcada por um sistema quase totalmente unidirecional, com uma grande desiguldade entre emissores e receptores, limitando bastante, dessa forma, a idéia de interlocução.

atualmente o conceito merece uma revisão, obviamente. o desenvolvimento dos meios técnicos, o surgimento da internet - um meio estruturalmente aberto e anárquico de troca de informações - e a globalização nos forçam a refinar melhor este conceito, embora não seja ainda pertinente abandoná-lo.

Já o "Contra-Indústria", proposto pelo poeta e articulador cultural Makely Ka e reforçado por vários outros ativistas do mercado musical contemporâneo, claramente derivado do conceito adorniano e também do termo "contra-cultura", que se refere ao conjunto de manifestações culturais que questionam de alguma forma as bases estruturais de um sistema de produção, distribuição e consumo estabelecidos, vem, por sua vez, como alternativa ao termpo "independente". Mas quais seriam exatamente seus pressupostos teóricos? Em qual paradigma está inserido? Quais são exatamente os pontos que questiona e propõe alternativas da chamada "música independente".

Talvez a própria palavra "independente", pela percepção de que a dependência não existe apenas no mercado oficial das gravadoras, em que os artistas dependem de uma série de decisões empresarias sobre a produção, distribuição e promoção de seus trabalhos. a dependência, por exemplo, no mercado musical mineiro, da maioria dos músicos profissionais em relação aos mecanismos das Leis de Incentivo à Cultura, e, consequentemente, a empresas patrocinadoras e os escritórios de produção a eles ligados. A diferença, na prática, é que o modelo atual é apenas mais neoliberal e econômico para os investidores, que têm boa parte dos impostos que fatalmente seriam investidos em cultura via impostos liberados para repasses "diretos" para os projetos patrocinados, ou seja, de produto à venda no mercado, a música passa a ser interpretada como instrumento de propaganda para quaisquer outros produtos: serviços de telefonia, produtos de beleza, siderurgia...

Não seria esta uma dependência ainda mais grave, já que o público consumidor final de produtos culturais já não têm acesso direto à escolha dos produtos, por estes dependerem de suas funcionalidades como peças publicitárias?

Pois bem... se o nascimento de "contra-indústria" existe para questionar a falsa "independência" da classe musical em sua rotina de trabalho, também deve produzir questionamentos sobre a superação dos mecanismos das estruturas que os mantêm, ou seja, os mecanismos da indústria cultural.


a discussão está aberta.
um abraço.

13 comentários:

Guilherme Castro disse...

Bem, há algum tempo que tenho pensado sobre esses termos e acho que, antes de tudo, é necessário diminuir um bocado do peso político/ideológico do termo indústria cultural. Eu, pelo menos, encaro tal termo como algo mais descritivo e pragmático, como uma conseqüência inevitável do processo de industrialização que aconteceu nos séculos XIX e XX (em todas as áreas), e que, ainda mais hoje em dia, apenas descreve o processo e a série de eventos em rede no qual se configuraram os meios de produção e os modos de trabalho. E sob esse ponto de vista, penso que um termo melhor (talvez) para descrever tanto o presente momento quanto o que tem acontecido no universo cultural, seja algo similar a um pós-industrialismo (mais do que um contra-industrialismo). Digo isso pois há algum tempo que, pelo menos no Brasil, já sinto que o processo de industrialização se estabeleceu e se fundamentou, a tal ponto que já faz parte do métier de qualquer artista algum tipo de procedimento industrial, seja na utilização de mídias diversas, seja na busca por um processo de profissionalização demandado por um mercado que se fundamentou sob essas bases. Dito isso, não vejo tanto problema nas estruturas que mantêm o panorama da indústria cultural atual, mas sim, nas distorções que ocorrem em seus aspectos internos e como isso pode ser corrigido ou amenizado. Vale lembrar que, historicamente, a arte ( e, principalmente, a música) ocidental sempre contou com um processo de mecenato (a não ser pelas manifestações ritualísticas folclóricas), seja da Igreja, da Nobreza, do Estado e agora, do Estado e das Empresas. E não vejo muito jeito de superar tais fatores, sobretudo em uma época de forte "economização" do modo de viver. Também vale lembrar que várias distorções sempre ocorrerão nesses mecenatos, e nem por isso, os artistas foram menos estetas por terem que lidar com as "sugestões" dos mecenas. A questão sempre passou pela linguagem e capacidade criativa de lidar com os signos à sua disposição. Veja bem, não é que eu ache que não há problemas e distorções para se combater. Eu só acho que há como se utilizar dos mecanismos vigentes para, aos poucos, mobilizar e corrigir tais problemas. E, talvez seja assim que se consiga superar e encontrar modelos mais adequados de atuação cultural. Não vejo as leis de incentivo como algo contra uma produção pós-industrial. Pelo contrário, vejo como uma ferramenta de atuação pós-industrial que permite uma maior autonomia em relação à influência dos fatores econômicos e do mercado. Realmente, concordo com você, no aspecto de que ela é apenas mais liberal e cai em distorções de outra ordem, oriundas também de fatores econômicos. Eu, particularmente, penso que a idéia de um fundo gerido pelo governo fosse algo talvez mais interessante (apesar de também propiciar distorções, principalmente políticas). Mas não tenho ainda um pensamento formado e fechado sobre essa questão. Talvez a única coisa que eu penso que deva haver é maiores possibilidades de mecenato, com ampliação e extensão de sua capacidade. Talvez isso diminuiria as distorções que rolam, simplesmente pelo fator diversidade. Quanto mais mecenas, maiores as chances desse mecenato possibilitar e propiciar a difusão da diversidade, sendo talvez assim, mais justo. Acho que é na diversidade que se fundamenta o pós-industrial, seja na diversidade de ferramentas, linguagens, ações, propostas, estéticas, etc. É um artesanato Industrial, aparentemente contraditório porém, largamente praticado e distinto da prática industrial de até então. Essa é a minha opinião... um abraço...

Renato Villaça disse...

guilhermão


concordo que sempre houve mecanismos de financiamento das práticas e bens culturais, embora esses tenham se modificado historicamente e ainda se modifiquem.

também acho que o conceito Indústria Cultural merece uma revisão e re-contextualização histórica. mas acho que seus pressupostos teóricos continuam válidos, e talvez ainda mais.

num momento em que a obra de arte perde o status (que já rebaixava, de certa forma, seu valor estético e político) de mercadoria e passa a ser usada como peça publicitária, ou seja, como algo capaz de ajudar a vender outros produtos (de funções e características de consumo totalmente diversas), não consigo vislumbrar toda essa diversidade nas estruturas do mercado oficial.

veja que, além de se esforçar cada vez mais para produzir música que venda o produto alheio (e não mais a si própria) a dependência dos artistas em relação às estruturas governamentais também é preocupante. acho que ninguém entendeu, mas quando discordei da convocação feita por parte dos membros diretores da comum sobre a importância do comparecimento dos músicos no evento de lançamento de um programa de estímulo musical do governo estadual, embora essa mesma diretoria talvez não concorde com os fundamentos políticos nos quais ela se estrutura (vide o fonograma que descreve o novo código de conduta do brasil real...), ajudando a fazer propaganda desse governo, ou a falta de posicionamento e a produção de discursos claros dessa mesma classe sobre o absurdo que representa a aliança de cartas marcadas que representa a eleição para prefeito de Belo Horizonte indica menos um movimento CONTRA do que A FAVOR do contexto de produção cultural estabelecido.

veja bem: não sou contra o uso dos mecanismos governamentais e das próprias leis pela classe artística. se eles existem e representam cada vez mais a única via oficial de financiamento, deve mesmo ser usada. mas o comparecimento ao evento e o aparecimento em sua foto publicitária significa que as pessoas compactuam com sua lógica e com os grupos de poder estabelecidos.

enfim... em tempos que uma maracutaia política totalmente anti-democrática é capaz de eleger facilmente um ilustre desconhecido para prefeito da terceira maior capital do brasil e praticamente garante as próximas eleições estaduais e para presidente e ninguém fala nada, dá uma sensação de que as coisas já estão todas prontas e resolvidas.

vamos trocando idéias.
abraço.

Guilherme Castro disse...

Renato,

Sobre o termo Indústria Cultural, acho que justamente seus pressupostos teóricos é que mudaram. O que não mudou muito foram os pressupostos técnicos. O sistema agora não é mais "marcado por um sistema quase totalmente unidirecional, com uma grande desigualdade entre emissores e receptores, limitando bastante, dessa forma, a idéia de interlocução", como você bem disse. Isso aconteceu à época de sua formulação. Hoje, mais do que nunca, receptor e emissor dividem papéis os de fruidor, criador e difusor, o que se reflete na diluição das fronteiras entre a tríade clássica compositor/intérprete/ouvinte. Já os pressupostos técnicos (a dependência do suporte fonográfico - físico ou virtual -, a utilização de técnicas publicitárias na divulgação de um trabalho e a necessidade de um suporte econômico para a realização de tais aspectos, entre outros, isso não mudou muito. O que mudou foram seus detalhes: o rolo de cera que virou vinil, que virou fita, que virou CD, que virou MP3...o marketing mudou de vendas de peças de mobília (rádio e gramofones), para qualidade técnica (It's live or memorex), para vendas fonográficas (o que é bom é o que vende mais ou, sucesso em todo Brasil, como diria Raul Gil - hehehehe).

Sobre a participação da COMUM no lançamento do programa, eu também sou mais pragmático: A COMUM concorda sim com aquela ação de governo, viesse ela do governo que fosse. Isso não quer dizer que ela concorda com tudo do governo ou com sua direção política, seu código de ética, etc. Aparecer na foto, infelismente, é algo que não tem muito jeito de fugir, já que a COMUM trabalhou para que tal ação saísse do papel. E, lógico, que o governo ia se utilizar disso para auto-promoção, mas penso que não havia outro jeito.

Agora, não acho que a música cada vez mais tem se esforçado para vender um produto alheio. Acho até que está se encaminhando para isso, o que é preocupante. O que acho é que há um esforço empresarial e publicitário em se utilizar da imagem gerada pelo fomento cultural em benefício da própria empresa, ao invés de um verdadeiro fomento artístico. A música produzida com o intuito de vender produtos é o jingle. A música com intuito de vender muito, ainda que siga parâmetros econômicos de facilidade de entendimento e difusão, tenta ser esteticamente independente, ainda que não gostemos do resultado e da pobreza deste. Mas isso não quer dizer que ela queira vender um produto que não seja ela mesma. Só diz que seu valor estético é mais questionável. E este valor é questionável por questões artísticas mesmo, e não por questões de funcionalidade. Da mesma forma que pode haver arte em um jingle, pode ocorrer a falta dela em um trabalho artístico.

Vamos continuando...um abraço

Renato Villaça disse...

RARARA!!!


Falô Guilhermão.
Entendo seus argumentos, embora não concorde com alguns.
Estou gostando da discussão. É saudável. Pena que o pessoal não aprecie muito a academia e as ciências humanas. São, digamos, "mais pragmáticos"... rarara!!!
Tudo certo. Cada um cumpre sua função. A minha, talvez porque foi o único trouxa que aceitou nesses tempos de alianças, é de assumir esse rótulo de "radical". Mas não me queixo disso. Ser radical é tão demodê nesses tempos que a aliança do pt com o psdb está aí. para prefeito, governador e presidente. Sou radical. Vou anular meu voto.
No mais, belo nível do debate, o nosso, heim... to gostando.
Só não concordo, como artista e professor de publicidade e propaganda, que seja possível haver arte num jingle. Aí não...

Guilherme Castro disse...

HEHEHEHE... por que não? Se pode haver arte em uma missa, acho que pode haver arte em um jingle... hahahahaha

bela discussão!

makely disse...

Renato, acho louvável sua iniciativa de criar o blogue de discussão. Tenho acompanhado as atualizações e os comentários com curiosidade para ver qual rumo tomariam. Acho que é o momento de dar minha colaboração.

Cabe esclarecer que a proposição e defesa do termo contra-indústria surgiu dentro de um contexto específico. Cerca de três anos atrás, quando foram formadas as câmaras setoriais convocadas pelo Ministério da Cultura houve a necessidade de formatação de um projeto de política pública para a área da música; uma área que historicamente sempre esteve atrelada aos interesses das grandes corporações fonográficas que se instalaram no país e dominaram o mercado nas últimas cinco décadas. Naquelas reuniões, que aconteceram no prédio da Funarte, no Rio de Janeiro, estavam presentes representantes do governo (MinC, Ministério do Trabalho, Planejamento, Educação, OMB, etc), da iniciativa privada (ABPD, ABERT, ABEM, ECAD, etc) e representantes da sociedade civil organizada em fóruns de discussão(17 estados enviaram seus representantes). Durante aqueles meses de discussão inédita, percebemos a necessidade de demarcarmos nossas diferenças de forma mais contundente e, por sugestão do compositor Antônio Adolfo, do mítico álbum Feito em Casa (1977), adotamos a alcunha de autoprodutores. É bom lembrar também que foi a partir daquele momento que o termo “cadeia produtiva da música” passou a fazer parte do vocabulário corrente de músicos, produtores e jornalistas, às vezes deslocado ou mesmo sem um entendimento total do seu significado. A cadeia efetivamente envolve todos os elos, ou nós, do mercado da música, desde a criação, ou ainda antes, a formação, até o consumidor. Mas nossa atuação até o momento se concentrava nos dois ou três primeiros elos, ou seja, os nós da veiculação, distribuição e consumo até então não conseguíamos desatar. Nos demos conta então que muitas vezes, éramos nossos próprios consumidores, daí o caráter autofágico do termo.

Mas mais importante do que a conceituação da cadeia produtiva, que serve para ilustrar o modo de produção que herdamos da grande indústria fonográfica, talvez seja perceber a mudança de paradigma operado a partir da última década do século passado.

Ora, até meados de 1877, ano da invenção do fonógrafo pelo norte-americano Thomas Edson, a única forma de armazenamento de música era a memória. E foi assim nos últimos cinqüenta mil anos pelo menos, quando se tem notícia das primeiras tentativas do homem organizar o sons e os silêncios no tempo, imitando o que ouvia na natureza. Quando esses sons começaram a ser registrados nos discos de cera podemos dizer que foi o prenúncio de uma mudança radical na nossa forma de armazenar – e ouvir – música. De lá pra cá a coisa andou muito rápido e em menos de cinqüenta anos estava consolidado o que conhecemos hoje como Indústria Fonográfica. Essa grande indústria que surgiu e se firmou no rastro do capitalismo galopante do século XX, incorporou como poucas alguns preceitos básicos da Revolução Industrial, como a utilização de tecnologia de ponta e a reprodução em série.

Consta que Cornélio Pires foi um dos primeiros artistas a gravar de forma autônoma no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos, a partir de 1929. Antes dele porém houve a fantástica iniciativa de Chiquinha Gonzaga e seu marido, que entre 1920 e 1922 mantiveram uma gravadora autônoma. Já na década de setenta houve iniciativas como a do próprio Antônio Adolfo e seu já citado “Feito em Casa”. Mas se foram todas essas iniciativas louváveis, pelo pioneirismo e pelo teor contestatório que traziam, foram também isoladas e amadoras, a ponto de não conseguirem se auto-sustentar como alternativa viável às grandes corporações.

Somente nos anos 90 foi possível dar um salto nesse sentido. Pela primeira vez na história da indústria os meios de produção começaram a se tornar acessíveis a uma parcela considerável da população, não somente aos donos do capital. Não a todos é verdade, mas àqueles que dispunha de um computador e uma conexão com a internet. Por mais excludente que ainda fosse, tínhamos dado um salto; não era mais necessário um grande parque industrial para produzir um disco, um livro ou mesmo um filme com qualidade compatível ao dos produtos da grande indústria.

Há de fato um elemento artesanal na forma de trabalho desses autoprodutores. Mas o termo contra-indústria não se refere exclusivamente a esse aspecto. A grande mudança de paradigma diz respeito à mudança de procedimento num dos pilares que pautaram o desenvolvimento econômico do capital desde a revolução industrial: a especialização. A compartimentalização dos saberes e a ultra-especialização das atividades tornou-se a tônica da grande indústria, levada às últimas conseqüências com o fordismo e replicada nos mais diversos ramos do conhecimento, inclusive nas academias. Da escolástica com pretensões universalizantes chegamos à mediocridade dos MBAs e pós-graduações em especialização. Com a indústria da música não foi diferente, a esquizofrenia se instaurou no seio das grandes coroprações, onde o departamento de criação não dizia respeito ao departamento de vendas que não se comunicava com o departamento de comunicação e assim sucessivamente. A grande indústria foi à bancarrota.

O filósofo inglês Thomas Kuhn, em seu livro “Estrutura das Revoluções Científicas” afirmava que nos momentos de crise há uma proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. É quando se produz uma revolução e um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Nesses momentos é fundamental uma nova terminologia, para dar conta dos novos conceitos. Com alguns ajustes podemos adaptar o mesmo esquema para pensarmos a revolução ora em curso no interior da Indústria Cultural.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O que quero dizer é que o autoprodutor é o operário da Contra-indústria! A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras. A Contra-indústria se impõe portanto como um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, mas a contradição dos termos é apenas aparente e perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui na verdade como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Indústria Cultural, o termo sexagenário criado por Adorno no livro Dialética do Esclarecimento, escrito a quatro mãos com Horkheimer e publicado em 1947, adquire assim um novo significado dentro de uma perspectiva dialética da história da produção e do consumo de arte. Aquele foi o momento de identificação do surgimento de um fenômeno em escala mundial que se consolidaria nos anos 60 e 70, atingiria o ápice nos 80 e entraria em franco declínio a partir de meados da década de noventa do século passado.

Nos resta agora nada menos que escrever os próximos capítulos dessa história!

Renato Villaça disse...

Isso aí, Makely.

Bem vindo à turma.

Concordo com tudo o que disse. Temos hoje um contexto sócio-tecnológico inédito na história. O que me preocupa é se a lógica interna (dos próprios indivíduos enquanto figuras formadas dentro do paradigma anterior) ainda não mantêm a mesma lógica geral do período anterior. Se a lógica da Indústria Cultural está definitivamente superada, temos que repensar ações práticas.

me desanima, por exemplo a lógica de funcionamento do mercado de produção da cidade. um mercado viciado em 2 ou 3 grandes empresas financiadoras, que na prática atuam como gravadoras, porém sem um diretor artístico à altura, projetos aprovados com orçamentos altíssimos e com resultados pífios de exposição às pessoas, amadorismo espalhado por quase todos os veículos e produções de eventos (por falar nisso, gostou do programa?), estúdios grandes e luxuosos bombando e gastando muito mais do que o necessário por vaidade, e os artistas cada vez mais se conformando nesse esquema relativamente confortável. mesmo que não dê resultados práticos. o que me incomoda é um artificialismo de às vezes "ter que fazer", outras "só poder fazer" as coisas por meios mais burocráticos (e, sim, cada vez mais especializados nesse aspecto) e menos criativos.

Bom aparecer por aqui. Sua figura é um símbolo importante. É um agregador que trabalha sério pela cena.

Um abraço.

T.R. disse...

Pois é, acho que cheguei um pouco atrasado! Acho que o Makely definiu bem o termo da Contra-Indústria, sendo, realmente, a não especialização. Dessa forma, o autoprodutor se vê inserido em todos os processo da cadeia produtiva, o que é algo novo pelo menos na chamada "MPB". E ainda dentro do rock e do punk, onde o "faça você mesmo" teve sua origem e foi mais difundido, era permeado ainda de muito amadorismo. Realmente, após os 90 principalmente, depois dessa "revolução digital", é que ficou mais viável se produzir música fora dos grandes circuitos. Porém, vale lembrar a experiência da Lira Paulistana que, na minha opinião, é o primeiro exemplo de música contra-industrial realmente profissional no Brasil. Logo no início dos anos 80, Beleléu Leléu e Eu do Itamar Assumpção vendeu 18mil cópias (LP, obviamente) em 3 meses. Se isso não é um "resultado" profissional fantástico, eu não sei o que é. E realmente, depois disso, a "MPB" passou a ficar de certa forma à margem da indústria cultural sendo substituída pelo rock, anteriormente marginal. No fundo, o discurso contra-industrial não aborda questões estéticas (como ocorriam com os "ismos"). Propõe uma nova maneira de pensar as etapas da cadeia produtiva, não especialista, estando aí a mudança básica de paradigma, como disse o Makely.

Sobre as leis de incentivo, acho que a maioria concorda que os fundos de cultura seriam algo ideologicamente mais próximos a liberdade artística, que existe com os autoprodutores da contra-indústria. No mínimo, algo mais marxista. O fato de oferecer incentivos fiscais em troca de patrocínios culturais surgiu com o intuito inicial de criar uma relação direta dos artistas com o setor privado, como uma medida paleativa passageira. Como a maioria desse tipo de política (vide fome zero) o efeito acabou sendo justamente o contrário, e várias empresas só apóaim projetos hoje em dia através de leis de incentivo. Nada mais natural, pensando do ponto de vista do marketing dentro das práticas capitalistas globalizadas. É uma publicidade "gratuita" e a empresa pode ainda escolher quem incentivará, pois existem milhares de artistas e produtores se degladiando por esses recursos. Não que isso não ocorra nos fundos, mas pelo menos é uma maneira direta de incentivo eliminando a propaganda gratuita das empresas. Concordo que, como autoprodutores, temos que tomar cuidado com essa dependência. Acho que as leis de incentivo são mecanismos extremamente importantes e devem ser usados, pois vários trabalhos de altíssima qualidade foram viabilizados através delas até hoje. Acho, também, que debates para o aprimoramento dessas leis são fundamentais, e isto está inserido nas novas discussões da classe através dos fóruns. Entretanto, o show deve continuar, literalmente, e alternativas a esse sistema devem ser pensadas também. Nosso próximo CD, diga-se de passagem, será bancado do bolso, assim como o do Renato. Acho que isso é um reflexo de que estamos minimamente preocupados com isso.

Acho que a retomada das discussões das Câmaras Setoriais serão importantíssimas para essas e outras questões, espero poder participar um pouco mais se os meus filhos e trabalhos deixarem! rs...

É isso, abraços!

Téo Ruiz

Francisco Castro disse...

Olá, o seu blog é muito bom. eu gostei muito.

Parabéns!

Abraços

Renato Villaça disse...

valeu, francisco.

acho que temos bons colaboradores.
colabore você também.
é um conceito ainda em construção.
você pode ser co-autor dele também.

abraço.

Renato Villaça disse...

valeu, francisco.

acho que temos bons colaboradores.
colabore você também.
é um conceito ainda em construção.
você pode ser co-autor dele também.

abraço.

matheus matheus disse...

a contra-indústria não deixa de ser uma indústria, né? mas acho a iniciativa válida, pois esta maneira underground de se organizar é possivelmente a mais válida e a que implica maior liberdade de criação e ação para os artistas e, consequentemente, maiores possibilidades de qualidade e originalidade

rubens disse...

espero que voces consigam escrever essas novas páginas e que elas estejam a altura de Adorno, Walter Benjamim, ou quem sabe, Arnaldo Antunes e Wilmar Silva. Abraço.