sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Selo ou não sê-lo?



Pronto para criar o seu próprio selo de música virtual? Por Marcus Vinícius Brasil São Paulo, 26 (AE) - Toda crise é terreno fértil para novas iniciativas. No caso dos problemas enfrentados pela indústria fonográfica, não é diferente.
O site Next Big Sound prova isso. A idéia é simples, mas divertida.

É possível fazer dois tipos de cadastros; um para artistas e outro para "mecenas". Se você for um músico, suas faixas serão tocadas na rádio do site. Como mecenas, pode escolher artistas para criar seu próprio selo independente virtual.

"A idéia foi concebida originalmente como uma alternativa ao processo de recrutamento em grandes gravadoras. Nos inspiramos no poder de democratização da internet", diz David Hoffman, um dos criadores.

É possível escalar até dez artistas em cada selo. Quanto mais pessoas adicionarem um artista que faz parte de seu selo, mais valorizado ele fica. O artista também ganha pontos.

Os artistas mais bem ranqueados ganham destaque na homepage. E os mecenas com bom faro ganham fama no site.

Por enquanto é apenas uma brincadeira, artistas e mecenas não ganham dinheiro. Também não há previsão de qualquer tipo de iniciativa fora do plano digital. Mas Hoffman diz que o retorno tem sido positivo. "Tenho certeza de que estamos conectando artistas e ouvintes, e todo fã dá apoio a iniciantes."
Para quem está começando a criar seu selo, Hoffman sugere que "ouça muitas músicas para reunir bandas que lhe interessem" (leia mais dicas de gravadoras reais no texto ao lado).

Mas não são só o Next Big Sound e o já manjado MySpace que oferecem ferramentas de divulgação para novos artistas à procura de reconhecimento. O músico Gustavo Nobio, do projeto SUPRA Vida Secular, utiliza muitos deles para espalhar seu trabalho.

Há duas semanas, ele lançou um álbum virtual no Last.FM. "O MySpace permite que apenas seis músicas sejam colocadas de uma vez. Por isso procurei alternativas". No começo da carreira, ele distribuía músicas gravadas em fitas K-7. "Hoje pelo menos tenho a certeza de que meu trabalho não ficará preso no correio". Ou esquecido dentro de um envelope.

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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

o que é, afinal, contra-indústria?

Sinto que a discussão neste blog aqui anda meio parada.

Sntão vou propor aqui o debate sobre dois termos que foram criados em contraposição a outros, usados anteriormente, e que careciam de demarcações teóricas claras.

O termo "indústria cultural" foi criado por Theodor Adorno, um dos principais filósofos ligados à Escola de Frankfurt (também conhecida como Escola Crítica), e diz respeito ao conjunto de produtos e manifestações geradas através dos mass media e das estruturas técnicas, burocráticas e comerciais capitalistas, no início do desenvolvimento da época da reprodutibilidade técnica da arte (idéia desenvolvida por Walter Benjamim, também da mesma escola), como alternativa ao termo "Cultura de Massas", desenvolvido pelos americanos.

Indústria Cultural surgiu como um termo que aponta para a percepção de que a cultura "midiática" não pode ser propriamente considerada uma cultura DE massas, já que é, desde seu início, marcada por um sistema quase totalmente unidirecional, com uma grande desiguldade entre emissores e receptores, limitando bastante, dessa forma, a idéia de interlocução.

atualmente o conceito merece uma revisão, obviamente. o desenvolvimento dos meios técnicos, o surgimento da internet - um meio estruturalmente aberto e anárquico de troca de informações - e a globalização nos forçam a refinar melhor este conceito, embora não seja ainda pertinente abandoná-lo.

Já o "Contra-Indústria", proposto pelo poeta e articulador cultural Makely Ka e reforçado por vários outros ativistas do mercado musical contemporâneo, claramente derivado do conceito adorniano e também do termo "contra-cultura", que se refere ao conjunto de manifestações culturais que questionam de alguma forma as bases estruturais de um sistema de produção, distribuição e consumo estabelecidos, vem, por sua vez, como alternativa ao termpo "independente". Mas quais seriam exatamente seus pressupostos teóricos? Em qual paradigma está inserido? Quais são exatamente os pontos que questiona e propõe alternativas da chamada "música independente".

Talvez a própria palavra "independente", pela percepção de que a dependência não existe apenas no mercado oficial das gravadoras, em que os artistas dependem de uma série de decisões empresarias sobre a produção, distribuição e promoção de seus trabalhos. a dependência, por exemplo, no mercado musical mineiro, da maioria dos músicos profissionais em relação aos mecanismos das Leis de Incentivo à Cultura, e, consequentemente, a empresas patrocinadoras e os escritórios de produção a eles ligados. A diferença, na prática, é que o modelo atual é apenas mais neoliberal e econômico para os investidores, que têm boa parte dos impostos que fatalmente seriam investidos em cultura via impostos liberados para repasses "diretos" para os projetos patrocinados, ou seja, de produto à venda no mercado, a música passa a ser interpretada como instrumento de propaganda para quaisquer outros produtos: serviços de telefonia, produtos de beleza, siderurgia...

Não seria esta uma dependência ainda mais grave, já que o público consumidor final de produtos culturais já não têm acesso direto à escolha dos produtos, por estes dependerem de suas funcionalidades como peças publicitárias?

Pois bem... se o nascimento de "contra-indústria" existe para questionar a falsa "independência" da classe musical em sua rotina de trabalho, também deve produzir questionamentos sobre a superação dos mecanismos das estruturas que os mantêm, ou seja, os mecanismos da indústria cultural.


a discussão está aberta.
um abraço.

domingo, 31 de agosto de 2008

Mais uma referência

Em diálogo com os posts do Domador e do Guilhermão eu passo aqui uma referência interessante que eu estou lendo no momento. É um livro que trata justamente da questão da cultura (no sentido mais amplo dessa palavra) se tornar, digamos, uma moeda de troca econômica e política no final do século XX e início desse.

O autor George Yúdice trata do que ocorre quando a arte e a cultura passam a ser consideradas domínios estratégicos ao se tornarem assuntos de interesse não só de empresas privadas ou de governos estatais como também de instituições como o Banco Mundial, o BID entre outros.

O nome do livro é "A conveniência da cultura - usos da cultura na era global" e foi lançado no Brasil pela Editora UFMG. Dêem uma olhada, pode ser interessante para esquentarmos as discussões "contra-industriais".

Rafael Azevedo

bares

então senhores.


entrei recentemente pra COMUM e queria botar um assunto na roda pra discussão, que acho que é algo importante pra qualquer projeto coletivo de uma cidade.

bh tem problemas crônicos de espaços para apresentações e distribuição de produtos culturais "contra-industriais". na verdade talvez não tenha, de fato, nenhum.
sabem que tenho ressalvas quanto ao fundamento que sustenta as leis de incentivo à cultura, isto é, a privatização das decisões e gestão sobre os gastos públicos em cultura. acho que elas atualmente são um mal necessário e que precisam ser usadas como um recurso, mas não vistas como prioridade ou uma fonte de renda estável e permanente para a classe artística. afinal, não somos funcionários públicos.

enfim... acho que minha sugestão inicial para qualquer movimentação coletiva de músicos em bh é a construção de uma estrutura de espaços independente de quaisquer apoios institucionais ou governamentais que, por si só, comercialmente, se sustente e gere um contexto em que os músicos se apresentem sempre e, aos poucos, fiquem mais próximos do público local.

todos sabem o quanto odiamos tocar em bares. eu mesmo tenho uma parceria com o makely sobre isso. mas temos que compreender que belo horizonte é a capital nacional dos bares. ninguém consome nada por aqui fora desse circuito. quem vai aos teatros é quem já conhece ou já frequenta um circuito muito específico. e se quisermos realmente ampliar de democratizar o acesso à nossa música, nunca imaginei repetir isso na vida, mas, vamos lá: "todo artista tem de ir aonde o povo está".

rarararara!!!

enfim... idéia pra se discutir.

abraço.

domador

domingo, 10 de agosto de 2008

Links interessantes

Outro dia, conversando com o Renato, falei que passaria uma série de indicações bibliográficas sobre tecnologia de gravação, indústria fonográfica, história da música prática ocidental, etc. Aqui vai então uma série de indicações que, de alguma maneira, nortearam a minha pesquisa de mestrado. Não sei se elas têm um cunho reflexivo pertinente ao assunto contra-indústria. Porém, é sempre bom ver como a indústria funciona ou funcionou. Ou ainda, entender e conhecer os possíveis caminhos que estão abertos ou por abrir. De qualquer forma, espero que seja interessante para todos...

História das tecnologias de gravação
http://history.sandiego.edu/gen/recording/notes.html

História do P.A.(Public Address)
http://www.historyofpa.co.uk/

Guia do Mercado Brasileiro da Música
http://www.guiadamusica.org/conteudo/default.php

História da Música Eletroacústica
http://www.music.psu.edu/Faculty%20Pages/Ballora/INART55/timeline.html#

Physical Audio Signal Processing
http://ccrma.stanford.edu/~jos/pasp/

Minha dissertação de mestrado: Cyberock
http://www.somba.com.br/cyberock.pdf

Digital Music Research - UK Roadmap
http://music.york.ac.uk/dmrn/roadmap/

Diversos programas freeware
http://ccrma.stanford.edu/planetccrma/software/roadmap.html

SMC
http://smcnetwork.org/roadmap/definition

Sérgio Freire (Prof. da UFMG - contém publicações diversas)
http://www.musica.ufmg.br/~sfreire/

Fernando Iazzetta (Prof. da USP)
http://www.eca.usp.br/prof/iazzetta/texto.html

Livros interessantes:

Autor: Michael Channan

Títulos:

Repeated Takes, A Short History of Recording and
its effect on Music 
Verso, 1995

Musica Practica: The Social Practice of Western Music from Gregorian Chant to Postmodernism
Verso, 1994

From Handel to Hendrix, The Composer in the Public Sphere

Verso, 1999

Quanto quer pagar?

(publicado no overmundo)


O grupo de rock alternativo (como define alguns), Radiohead, teve início no fim dos anos 80, em Oxford, Inglaterra, originalmente sob o nome On A Friday. O nome Radiohead veio de uma música dos Talking Heads, uma das influências da banda, chamada "Radio Head".

Mas, na verdade, não estou aqui pra discutir o som desse grupo britânico e muito menos o valor deles dentro do “rock alternativo” internacional. Deixo isso para os especialistas de plantão. O que realmente chamou a atenção no último álbum lançado pela banda, In Rainbowns, 2007, foi a ousadia e a maneira de distribuição proposta, que é exatamente o título deste “texto ninja”, como diria Leminski. O que represente, talvez, uma grande revolução do próprio conceito de CD, foi tachado, por alguns, como mais um fulminante ataque à indústria fonográfica atual. E pode ter sido mesmo, principalmente por ter vindo de um grupo com um grande renome.

Logo ao entrar no site da banda já aparece um aviso de que o novo álbum da banda está, por enquanto, disponível somente no site. Logo mais, você descobre que pode fazer o download das músicas pagando qualquer valor entre 0 e 100 libras! Aí muitos perguntariam: e o disco? Ele pode ser adquirido, ainda pelo site, a partir de dezembro, porém aí, obviamente, com custo de envio e tudo mais.

O que está embutido nesta atitude radical, em sintonia com a produção independente que desponta no Brasil, é que, cada vez mais, os artistas estão se dando conta de que o esqueleto do esquema fonográfico montado durante praticamente todo o século XX começou a entrar em cheque a partir principalmente dos anos 90, sofrendo duros golpes ao longo deste início de milênio resultando em queda brusca das vendas e ausência de novidades, por exemplo, condenando o circuito a um abismo cíclico, espero, sem volta. Naturalmente é de se esperar que a tendência seja mesmo que artistas fora desse grande circuito ganhem mais espaço, e, de certa forma, já começamos a observar isso.

O site da BBC Brasil traz uma matéria com uma dura crítica a essa inovação. “Talvez a revolução digital tenha dado poder demais às bandas. Talvez o Radiohead precise de uma gravadora”. E realmente, a revolução digital tem dado cada vez mais “super poderes” às bandas e, se não fosse isso, hoje em dia provavelmente estaríamos experimentando uma constância musical generalizada, inclusive fora da grande indústria, pois o escoamento de toda ebulição cultural que se observa atualmente seria muito difícil. Os motivos da crise instaurada na grande indústria cultural são vários, e com certeza os pobres camelôs que vendem CDs piratas e o site do Radiohead estão longe de serem os principais responsáveis, como costumam apontar os órgãos oficiais.

A circulação rápida e globalizada de informação é inevitável e trouxe grandes avanços para vários setores da sociedade. Então porque esperar que artistas, mesmo das majors, fiquem de fora das maravilhas tecnológicas? Há muito tempo grandes artistas reclamam dos contratos e distribuição dos discos por parte das grandes gravadoras, essas sim, os grandes piratas que, digamos assim, acabaram cavando a própria cova. E mesmo elas já perceberam que a tendência é que a força do CD diminua, e o MP3 seja cada vez mais uma realidade. O cenário independente ou “alternativo” há muitos anos já é uma realidade (não precisa mais ser chamado de alternativo), inclusive no mercado, e essa nova maneira de distribuição proposta pelo Radiohead traz de bom uma forma simples de acesso com um recado muito claro às majors de que sua estrutura é cada vez menos atrativa aos novos artistas. Com toda certeza a banda não está preocupada com a discussão de que pode ser perigoso deixar o consumidor decidir o preço ou de quanto vale a arte. Vários grupos independentes já disponibilizaram seus discos totalmente pela Internet antes do Radiohead, mas a estratégia de marketing utilizada por esse grupo que com certeza já está na mídia é, sem dúvida, algo que merece destaque. E talvez eles até ganhem algum dinheiro com isso.

Essa maneira de distribuição, na minha modesta opinião, vai ao encontro com a toda nova produção musical que está sendo feita no Brasil, e também no resto do mundo. As gravadoras têm cada vez menos condições de manter sua enorme estrutura através de jabás e caros artistas, que, na maioria das vezes, não traz grandes inovações musicais. Sem entrar no mérito se este novo álbum do Radiohead é ou não uma obra prima, ele provavelmente será lembrado como um divisor de águas na distribuição pela Internet, a revolução digital, assim como o álbum Sargent Peppers dos Beatles é um marco do início da nova era de tecnologia de estúdio.

téo ruiz